quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Prometeu do século XXI

Roubei o fogo.
Deve ser isso
Entreguei aos homens
Zeus não gostou
Zeus se vingou

Roubei o fogo.
Só pode ser
Entreguei a todos
Zeus me puniu
Estou preso
Acorrentado
Meu mundo caiu
Meu fígado atingiu
E todas as vezes
A Águia faminta
Vem saciar
Uma fome sem fim

Roubei o fogo.
Sem promessas
A Águia vai mudar a dieta
Prometeu é imortal
Eu não chego ao Carnaval
Zeus vingará
Meu erro fatal

Meu fígado se regenera
A Águia vem, dilacera
Seu nome é Vida
Eu sempre a achei atrevida
Não prometo nem choro nem vela.

O Olímpo só assiste
A novela que ainda passa
Depois o canal se disfarça
E vira canal de YouTube
Os Deuses pedindo virtudes
Do mortal em desgraça
O fogo roubado ameaça
A Vida e a vida usada
Por quem pegou sem trapaça
Aquilo que sempre foi seu.

Agora outra bicada
Do bico mais afiado
O fígado não é blindado
A dor é de desmaiar
Todos os dias
Dói até de pensar
Que fogo! Que fogo! Sagrado.
Meu sangue vai apagar.

Francisco Braz Neto (08/01/2020)













Luto, luto indigente

O retrato velho está desbotado
Mais um pouco se apaga
E quem vai sentir falta?
Quem vai sentir saudades?
Quanto dói esse desaparecer?

A imagem está desfocada
Mais um pouco afastada
E quem vai corrigir?
Com Bombril antena cobrir
No exato momento que importa
No momento coração ainda toca
Um tambor vigoroso e ritmado
E só quer estar ao lado
De quem quer ouvir

O som está abafado
Mais um pouco se cala
Nem toma conta da sala
Nem é ouvido por ouvidos
É onda que já quebrou
Silêncio foi o que restou
Vazio é o resultado

A existência está condenada
A dor que dilacerava
Dilacera sem compaixão
Ver-se invisível, então
Dói mais quando é bem na frente
De quem olha e não vê a gente
Transpassa o nosso ser transparente
Esmaga o peito e a mente
As forças estão indo embora
Quando for tarde, não chora
Escolhestes cada detalhe
Lutastes cada batalha
E por aí as migalhas
São só efeitos colaterais
É só deixar para depois
A existência condenada
Só serve pra ser usada
Enquanto aguenta calada.

No dia que acontecer
O luto será por segundos
Vencido por outros sentimentos
Por quem recebe valor
Por quem está sendo cuidado
O ego, os outros, amados
Dia após dia da vida
Antes do luto, ferida
Ferido é o seu nome
O luto mais um sobrenome
Do indigente esquecido.

Francisco Braz Neto (08/01/2020)









sábado, 30 de novembro de 2019

Demais do mais do mesmo

De tudo que há
Há mais
De tudo que se vive
Há mais
Muito mais
Há demais

Do tudo que há
Há o mesmo
De novo
Novamente
Bem mais!

Quando vai parar?
Não sei mais.
Há mas, há porém e há do mesmo.
Até um fim
Dois fins
E um final.

Quando não suporta mais
E quica.
Vai quicando...
E a mais recente é a mais.
Dolorida.
Dolorosa.

As queimaduras de infância, cicatriz.
Cortes da adolescência, repeti.
O adulto achou pouco, insisti.
E sempre vem mais.
Vem demais do mais do mesmo.

E o mais recente parece doer mais.
O mais recente dói muito mais por comparação.
O que doeu há anos hoje não tanto quanto o que está em cartaz.
Essa sessão das 20h o filme me traz
A queimadura por fora
O corte que sangra e banha quintais.
O banho que consome e suja
Do mesmo sangue de antes
É sangue, é sangue demais.

Francisco Braz Neto (30/11/2019)



domingo, 24 de novembro de 2019

E eu não nasci há tanto tempo atrás!

Eu nasci há tempo.
Há tanto tempo eu nasci.
Vi começo, meio e fim.
Vi, vim e venci.
Vi perder, achar e cair.
Nem a tanto tempo assim.

Eu vi construir e demolir.
Ouvi dizer e não cumprir.
Há tempo que não há o que sorrir.
Se vou conseguir ver mais quem irá mentir?
E há pouco tempo atrás foi que outro tanto vi.

Olhei pro infinito e ele todo foi sorrir.
Feito de infinitos muitos
Um frente, um trás e os demais
Quer se descobrir.
Tribo, grupo, bando
Vila, burgo, Parir
Um s no r a cidade
O r ficando humanidade
Cresce, cresce a expandir.
E eu nem nasci há tanto tempo atrás!
Já vi, ouvi e aprendi.

Amigos melhores um dia
Um dia e tudo mudou
Mudar é a mais constante rotina
A amizade nem aguentou
Impérios, monumentos, castelos
Quem viu um que desmoronou?
A efêmera existência de um
Mudanças, mudanças, alterou
Amigos, casas, amores
E quantas nem observou?
Não tinha e tem smartphone
Quem vai ter o que nunca faltou?
Se nem muito tempo vivo ia.
Se quem foi nunca voltou.
Em uma única chance.
Quanta coisa acabou?
O belo da vida gangorra.
Começa, meia e findou.
Eu vi há tempos como era.
E vejo como ficou.
Quantas mais primaveras?
Tempestades de mudanças alcançou.
Na mente a lista não finda
De tudo que novo chegou.
O medo é que isso acabe
Com o abraço que já começou.
Humano há tempo demais
É frase que nunca rimou.

Francisco Braz Neto (24/11/2019)






















sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Decoração textual


Me livra
Me livro
Me escreve
Me pinta
Me enquadra
Me flagra

Já inexisti
Fui tentativa
Cunhado
No papiro
Pergaminho
Em colunas
Em paredes
De templos
De castelos
Até que de inexistir eu existi
E o tempo passou
E de tantos lugares
Só livro!

Liberdade!
Eu imploro!
Por que só livro?
Me livro e também me livra.
Me parede
Me teto, me piso, me porta
Me coluna, me espelha
Me projeta, me exporta
Me olha, me fita, me lê
A forma, o conteúdo e o você
Me lendo na estação do metrô
Saí da tela do computador
E fui falar de um tudo
Falei até de amor

Me livro
Me livra
E logo converso contigo
Naquele dia feliz
Você sorrindo me diz
Que bom que estou ali
E livra logo de vez
Me livra da forma estanque
Não quero só como antes
Me põe em forma digital
Em cores e luzes de LED
Me põe na nova versão
A nova tecnologia
Vai valorizar o refrão

Entende que livre é melhor
Assim não fico só livro
Volto a ser livre
E você me lê
Assim você me decora
E eu decoro o quarto
E você me lê
Enquanto eu decoro a estação
Decoro até uma garrafa
E quando você me notar
Em qual lugar devo estar?
Onde podes me encontrar?
Serei sua tatuagem
Decoro a pele selvagem
Virgem de mim na lembrança
Ir além é a esperança 
Além do livro quintal
Decoro tudo que penso
Entenda o propósito afinal
Decoração textual
É mais uma beleza no mundo
Carente desse profundo
Do leve e ornamental

De
Coração
Textual
Em mim projetada
De dentro pra fora é projeto
De fora pra pele é cinema
Me testa o texto na roupa
Me bota na toalha e na louça
Na nave, no barco, no trem
Me livra
Me livro
Me brinca
Eu vou decorar o além
De
Coração
Textual
Pulsando
até 
o final. 

Francisco Braz Neto(08/11/2019) 

 








sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Aconchego

Oferece Aconchego
Chamego
Desejo
Que eu chego.

Recosta no meu peito de homem
No pelo
No ombro
Seguro abdômen.
Oferecido ao encaixe
Cicatrizes de outros enlaces
Ouvindo o teu doce nome.

Aquele calor corporal
A troca é tão passional
O sangue fervendo nas veias
Artérias e pulso anormal
Um bater tão acelerado
E o Aconchego aguardado
Vai coroar o final.

Matador de todos os medos
É meu amigo Aconchego
Insegurança treme
Pavor assim, passa fome
Eu quero ouvir o teu nome
Ao acordar logo cedo.

Volta! Volta! Volta!
Me pede de novo.
Não diz que há fim.
Amor é tudo pra mim.
Conheço o fundo do poço
Em braços recebo reforço
Decifro a mínima letra
Até a que confundi.
De idiomas mais variados
Até o dos querubins.

A luta da vida é sem pausa
É preço pra tudo que vejo
Enquanto não tenho Aconchego
A volta não volta pra mim
Me bota na pauta, na letra
Me ajeita, me faz um "denguin"
Me acerta, me canta, me versa
Troca o não pelo sim.

Aconchega o Aconchego mais forte
Me chama, repete com força
Convicta, única, segura!
Mais tarde a gente conversa
Fazendo tudo sem pressa
Madura, plena de doçura
O Aconchego se completa
Ternura, candura, formosura
Segura, segura, segura.

Francisco Braz Neto (27/09/2019)

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Rua fria

Na rua faz frio.
Eu sei como pisar no coração de um ser humano.
Já fui humano eu sei.
Talvez eu saiba.
Quem sabe são sempre os outros.

Na rua faz frio eu sei.
Eu sei como pisar sem fazer barulho.
Já fiz barulho eu sei.
Talvez eu saiba.
Quem sabe são sempre os outros.

Para pisar no coração de um ser humano existência no ato.
Um pavoroso compasso.
Para pisar no coração de um ser humano ponta e bico de aço.
A lança na costela eu passo.

A rua é fria a noite.
Até onde de dia é quente.
A rua é fria eu sei.
A rua é fria eu sei.
Para pisar na rua fria uma vítima, um falso.
Um paralelo eu traço.
Eu já pisei eu sei.
Talvez eu saiba.
Quem sabe são os outros.

A rua se anuncia.
De dia quente de noite fria.
O banho é chuva.
A chuva é o banho, a bebida e o disfarce.
Com o que nela não faz contraste.
Rua fria e eu sabia.
Acaba logo, agonia!
Eu sei ou sabia?
Talvez eu saiba.
Quem julga são os outros.

A rua é rua, rua avenida, rua viela, rua fechada e fria.
Lar e céu.
Como está o céu hoje?
Olha lá! Vai!
Estrelado?
Está chovendo?
Está nevando?
Consegue ver a lua?
Eu sei como pisar no coração de um ser humano.
Já fui humano eu sei.
Já fui humano eu sei.
Para pisar no coração de um ser humano deixe ele para depois.
Coma seu Baião de dois e deixe ele pensar que vale menos que arroz.
Talvez eu saiba.
Quem sabe são os outros.

A rua é fria.
Rua fria.
Vazia.
Sons.
Luzes.
Esconde.
Escondeu.
Escondia.
Um louco que dançava uma música que os outros não ouviam.
E assim a humanidade ... ia.
Calendário vigente do planeta sem guia.
A rua fria abraça.
Dela não terás alforria.
Agora anda até esgotar tuas forças.
Pisar em corações de humanos jamais te dará alegria.
Já fui humano eu sei.
Já fui humano um dia.
A rua foi quente e estava cheia.
E hoje fria, fria, vazia.

Francisco Braz Neto (24/09/2019)









Eu sou o fotógrafo!

Eu sou o fotógrafo!
Essa foto me enche de orgulho. Eu acho que ficou perfeita.